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[A-List] Cartas Ácidas: A verdade sobre o acordo com o FMI
- To: <mailto:
- Subject: [A-List] Cartas Ácidas: A verdade sobre o acordo com o FMI
- From: Jorge Figueiredo <jfgf.consult@xxxxxxxxxxxxxxx>
- Date: Tue, 20 Aug 2002 20:46:28 +0100
Cartas Àcidas: A verdade sobre o acordo com o FMI
(Acid letters: The true about Brazilian agreement with IMF)
Bernardo Kucinski, da Agencia Carta Maior.
A verdade sobre o acordo com o FMI
Nas primeiras manchetes venceu a mentira: o acordo com o
FMI recebeu o tratamento triunfalista: "Mercado comemora
o acordo" foi a manchete do "Estadão". Os outros jornais
seguiram o mesmo tom, algo como "Brasil conseguiu o
melhor acordo de toda a história com o FMI.
Mas os dólares continuaram fugindo e neste final de
semana "Veja" registrou perplexa: "Analistas quebravam a
cabeça para entender por que o anúncio do empréstimo de
30 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional
(FMI) não teve o esperado e imediato efeito apaziguador
sobre os mercados."
Muito simples: não teve porque a idéia era bem outra.
Este acordo foi uma das maiores tramóias da história
econômica do Brasil: assumimos dessa vez mais US$ 30
bilhões de dívidas, só para dar tempo aos bancos
estrangeiros tirarem seu dinheiro do Brasil. Só agora o
verdadeiro significado desse acordo está aparecendo nos
jornais.
Bancos deram o golpe com a ajuda de O´Neill
Tudo aconteceu na noite da terça-feira, dia 6 de agosto,
quando o secretário do Tesouro norte-americano, Paul
O´Neill, e seu adjunto, John Taylor, reuniram-se em São
Paulo com os pesos pesados da banca internacional.
O´Neill havia dito dias antes que não se deveria
emprestar dinheiro do contribuinte americano ao Brasil
porque "ia tudo parar na Suíça". Sua declaração jogou
lenha na fogueira estimulando ainda mais a saída de
dólares do Brasil.
Pois bem, esse O´Neill, na reunião fechada com os
banqueiros, concordou não apenas em emprestar mais
dinheiro ao Brasil, mas em emprestar mais do que Malan
vinha pedindo: US$ 30 bilhões, e não apenas US$ 20
bilhões. Por que tanta generosidade?
A notícia fora de foco
O encontro só foi noticiado dois dias depois , mesmo
assim por poucos jornais e de modo fragmentado e
incorreto. Na quinta feira, dia 8, a "Gazeta Mercantil"
dizia a partir de "relatos de quem esteve com O´Neill e
Taylor", que "o encaixe natural das peças do jogo deve
resultar numa volta natural das linhas de crédito
internacional ao Brasil."
Tudo cascata. O objetivo do novo empréstimo foi
exatamente o oposto: o de permitir aos bancos irem
tirando seu rico dinheirinho, pois faziam o prognóstico
pessimista de que o Brasil iria quebrar mais cedo ou
mais tarde, e teria de haver uma renegociação da dívida
externa. E o que é pior, essa renegociação poderia ter
do outro lado da mesa gente com Mantega ou Mercadante, e
não os amigos Malan e Fraga. Por isso, o anúncio dos
novos recursos do FMI não deteve a fuga de dólares e os
bancos não reabriram suas linhas de crédito.
A informação nas entrelinhas
No domingo, dia 11, surgiram alguns relatos divergentes
do triunfalismo oficial, mas ainda nas entrelinhas. Numa
entrevista à "Folha", Kenneth Mawwell, economista inglês
de renome, dizia que o Brasil caminhava quase certamente
para uma crise de pagamentos do tipo que exigiria uma
reestruturação geral. E que o acordo com o FMI só adiou
esse dia. Maxwell responsabilizou FHC pela crise e
comparou-o a Alfonsin. O convite de FHC aos candidatos
confirma essa percepção: o medo de um final a la
Alfonsin é o motivo principal do convite - nisso
concorda a mídia deste início de semana.
Nova revelação sobre o boicote ao Brasil
Na quinta, dia 15, "Valor" trouxe declarações do
representante do banco inglês Standard Chartered, Lauro
Vallejo, de que foi o próprio Banco Central da
Inglaterra que recomendou aos bancos ingleses reduzirem
suas linhas de crédito no Brasil. O vice-presidente do
Bank of Boston, Alex Zornig, praticamente confirmou essa
informação, recomendando o governo a contatar os bancos
centrais dos países desenvolvidos e o BIS, para pedir
que relaxem as exigências nas operações com o Brasil.
Neste domingo, o "Estadão" trouxe esta frase de O´Neill,
já posterior ao anúncio do acordo: "Não considero que
seja uma boa idéia que os governos peçam às empresas
para fazer algo que não esteja dentro de seus interesses
econômicos."
Moratória, a palavra proibida
Neste final de semana, foi proferida abertamente a
palavra proibida, mas pela imprensa internacional. Com
exceção de "Valor", que mesmo assim foi relativamente
discreto, a nossa mídia escondeu o assunto em espaços
menores. A "Folha" nem deu. O "Estadão" deu num pé de
página. O fato é que o "Financial Times" e "The
Economist", dois veículos que dão o tom à mídia em
questões de economia internacional., anunciaram que o
Brasil muito provavelmente vai quebrar. Isso explicaria
a determinação dos bancos de retirarem seu dinheiro do
Brasil e a ordem dos bancos centrais para que reduzam
sua exposição. O "Financial Times" disse que para o
Brasil "O jogo acabou". "The Economist" falou na
probabilidade de uma moratória e até deu a receita de
quanto o Brasil economizaria com uma renegociação da
dívida a juros mais baixos.
O mesmo golpe dos tempos coloniais
"Carta Capital" desta semana restabelece o verdadeiro
sentido do acordo: "Os reais beneficiários do programa
de US$ 30 bilhões ficam em Nova York e Washington". A
revista fez as contas do volume de empréstimos que
teriam que ser renovados, pelo menos US$ 32 bilhões este
ano e US$ 24 bilhões no ano que vem, e diz: "O que o FMI
oferece é para o Brasil trocar dívidas com bancos
privados por dívidas com o FMI."
Este acordo com o FMI só é comparável ao do acordo da
Coroa portuguesa com o governo britânico. Dom João VI
fugiu de Portugal acossado pelas tropas de Napoleão. Em
pagamento do apoio britânico na fuga, os portugueses
transferiram para sua colônia chamada Brasil a
responsabilidade pela dívida que tinham com os
banqueiros ingleses. Salvou-se a Coroa portuguesa e
salvaram-se os bancos ingleses. Os brasileiros ficaram
com a dívida, como agora.
Bernardo Kucinski, Agencia Carta Maior, 19.08.
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