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[A-List] Para onde vai a Argentina?



PARA ONDE VAI A ARGENTINA?

Miguel Urbano Rodrigues (*)

A explosão social na Argentina não foi uma surpresa.  Era esperada.  Vinha amadurecendo há meses.  O último pacote de Fernando de la Rua desencadeou a cólera das massas.  Buenos Aires tornou-se durante dias sucessivos o gigantesco palco de cenas de fúria popular que reavivaram no Continente a memória  do Bogotazo de 48 e do Caracazo de 88.  Mas a historia não se repete.  Enquanto na Colômbia oligárquica e na Venezuela de Carlos Andres Perez os responsáveis pela revolta popular conseguiram, em contextos históricos diferentes, afogar em sangue  os protestos de natureza insurreccional contra actos e políticas de governos corruptos -- De la Rua foi forçado a renunciar à Presidência.  Era um presidente totalmente submisso à vontade dos EUA, sucedendo a outro, também lacaio e com perfil de mafioso.
A crise argentina cujo desfecho, para alem do circunstancialismo das soluções constitucionais, é imprevisível, fez soar o alarme em Washington.
O medo provocado pelo «estallido porteño» foi tamanho que a primeira reacção da Casa Branca chocou  pela burrice.  Os conselheiros do Presidente andam tão preocupados com as incógnitas da  segunda fase da cruzada afegã que, falhos de imaginação, puseram na boca de George Bush um comentário que suscitou simultaneamente a indignação e o riso não apenas dos argentinos mas de toda a América Latina.
O Presidente dos EUA sugeriu ao futuro governo de Buenos Aires que «colabore com o Fundo Monetário Internacional na procura de formulas que ajudem a Argentina a sair da actual crise.»
Para cumulo, o porta voz do Bush, Al Fleischer, ampliando a sugestão presidencial, acrescentou ser desejo do seu chefe ver «o FMI ajudar mais uma vez a Argentina a optar por soluções que a conduzam ao desenvolvimento económico sustentável».
Ocorre que a catástrofe do pais resultou precisamente da imposição da política de ajuste do FMI, aplicada com inflexível rigidez pelo ex-ministro Domingo Cavallo, agora protegido da cólera popular por destacamentos da policia armados ate aos dentes, tal como a Embaixada dos EUA .

SITUAÇÃO PRE-REVOLUCIONÁRIA

A Argentina viveu na segunda quinzena de Dezembro uma situação pre-revolucionária.  Uma daquelas situações em que, na definição de Lenine, os de cima já não conseguem impor a sua vontade aos de baixo embora estes não estejam preparados para tomar o poder.
Estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para uma ruptura do sistema.  Ela não se produziu somente pela ausência de uma força política ou partido capaz de dirigir as massas, mobilizando-as em torno de um projecto alternativo , revolucionário.  O Exercito, tradicionalmente golpista, permaneceu passivo; apavorado com a crise económica não sentiu a tentação do assalto ao poder, porque não saberia como o exercer. 
Os temores de Washington têm fundamento.
As lições a extrair dos acontecimentos da Argentina justificam a inquietação por eles provocada no coração do sistema de poder imperial. 
Num momento em que a Casa Branca desenvolve grandes esforços para remover a resistência crescente à implantação em 2005 do ALCA como  projecto de recolonização da América Latina sob a egide dos EUA, o «estallido»argentino é interpretado nos países a sul do Rio Bravo como a demonstração mais convincente do fracasso absoluto das políticas neoliberais.  A Argentina foi nos últimos anos a cobaia e a vitrina do modelo que Washington pretende aplicar na totalidade do Continente.  Uma cobaia tão dócil que ate renunciou à soberania monetária para adoptar o dólar.  Foi privatizado tudo o que sobrava das privatizações anteriores.
O resultado das soluções do FMI e do banco Mundial está a vista.
Num pais que ha sessenta anos se orgulhava de ser o sexto mais rico do mundo, com uma classe media cujos padrões de vida eram comparáveis aos das suas congéneres da Europa Ocidental, uma grande parte da população vegeta hoje na pobreza.  A divida externa per capita é a maior do mundo.  O desemprego um flagelo.
A Argentina é um pais enorme (2 800 000 km2) e riquíssimo em recursos naturais.  Tem petróleo, minérios e a sua industria foi por muito tempo um modelo para a América latina .
Durante mais de um século a Argentina exportou carne  e trigo.  Era o celeiro da América e  na imensidão da pampa húmida  pastavam dezenas de milhões de vacas e ovelhas.  Hoje o povo tem fome e  saqueia os supermercados em busca dos alimentos que não pode comprar com salários de miséria.
Não foi somente na capital que a violência assumiu níveis nunca antes registados.  Em todas as grandes cidades do pais, de Cordoba a Mendoza, de Tucuman a Mar del Plata, de Neuquen a Rosario o povo saiu às ruas para exigir a renuncia de um presidente odiado e do seu séquito de ministros comprometidos com o ajuste de cores norte-americanas.  «Hijo de la mala madre» e «cobarde» bradava a turba enfurecida, insultando De la Rua; a Cavallo, de «hijo de puta» para cima.
De nada valeu o Congresso, a toque de caixa, ter anulado as leis que reduziram os salários e as reformas.  Era tarde.  O povo desconheceu o estado de sitio.  Os carros de agua, as cargas de cavalaria, os gases lacrimogéneos, as prisões a eito, os espancamentos selvagens, enfim, a brutal escalada repressiva  que semeou  de cadáveres as ruas e os acessos aos supermercados não foram desta vez barreira suficiente para conter a vaga torrencial da revolta popular.
A adesão à greve geral  traduziu a disponibilidade das massas para a luta.
Nas multidões em revolta era identificável um espirito revolucionário  sublinharam os próprios correspondentes das cadeias de televisão dos EUA.
Não haverá, porem, revolução na Argentina, por incapacidade de mobilização organizada do potencial revolucionário das massas.  Sem partido ou movimento revolucionário forte, com implantação popular, sem um projecto alternativo, não ha revolução possível.  O presidente da transição, Adolfo Rodriguez é um homem honesto.  Governador da Provincia de San Luis, reeleito em quatro mandatos sucessivos, fez muitas promessas.  Mas não as poderá cumprir.  A democracia representativa argentina é uma farsa.  Temos a prova disso no facto de Menem, líder do Partido Justicialista e um dos grandes responsáveis pela tragédia do país já ter anunciado que será candidato à Presidência nas eleições de 3 de Março. 
O susto não acabou em Washington.
A rebelião das massas argentinas foi um golpe muito duro na estratégia norte-americana para o Hemisfério.  Como se não bastasse o desafio da Venezuela bolivariana em defesa da sua soberania, no momento em que a Administração Bush tira conclusões da impotência do Estado oligárquico de Bogotá na luta contra as FARC-Exercito Popular da Colômbia  neste começo do século que desmente a teoria do fim da historia  o que está a passar-se na Argentina teve o efeito de uma cascata de água gelada a despenhar-se na arrogância imperial dos EUA.
O rumo que a história seguirá nos próximos meses na pátria de San Martin é imprevisível, tantas são as incógnitas do qual dependerá.  Mas até em Washington os homens do Presidente reconhecem que o espirito revolucionário permanece bem vivo na América Latina.

(*) jornalista português


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