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[A-List] (Fwd) Rubens Ricupero sobre la situación argentina y el Brasil
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From: Gorojovsky <Gorojovsky@xxxxxxxxxxxx>
To: @INNI.PML
Subject: Rubens Ricupero sobre la situación argentina y el Brasil
Send reply to: gorojovsky@xxxxxxxxxxxx
Date sent: Sun, 23 Dec 2001 12:44:23 -0300
OPINIÃO ECONÔMICA
A traição da história
RUBENS RICUPERO
"Como um jogador de futebol, a morte engana", observava Drummond em "Morte no
Avião". Não só a morte, poderiam queixar-se os argentinos, mas também a
história. A Argentina que deu certo foi praticamente uma dádiva da hist ória do
último quarto do século 19, mas acabou enganada pela traiçoeira inconstância
dessa mesma história. País rico em terra fértil, mas pobre de capital e gente,
a
vantagem natural não lhe serviu de grande coisa a princípio. A oportunidade só
surgiu a partir do momento em que o transporte marítimo mais rápido e barato e a
invenção dos navios-frigoríficos permitiram atender à demanda de alimentos das
grandes populações urbanas criadas pela Revolução Industrial. Entre 1870 e a
Primeira Guerra Mundial, a globalização vitoriana gerou, de forma dependente, o
fastígio portenho da "época das vacas e do trigo". A Europa tinha então apetite
voraz pelas carnes, os cereais, as lãs da Argentina e fornecia-lhe, em troca, os
créditos e investimentos ingleses para financiar ferrovias, portos,
frigoríficos, bem como as massas de imigrantes que transbordavam da sua expansão
demográfica. Era uma combinação imbatível: os côncavos das peças de um lado do
Atlântico aninhando-se perfeitamente nos convexos do lado oposto. Era nesses
dias dourados que os estancieiros de renome, os "apellidos de calle" ("nomes de
rua"), viajavam à Europa com a família e a criadagem, levando as próprias vacas
para servir-lhes leite fresco no navio. Não se dignavam a baixar a terra na
escala do Rio de Janeiro, não só por temor à
febre amarela mas porque nada tinha a oferecer-lhes a cidade que recebia
somente as migalhas dos cantores de ópera de passagem, a caminho ou de volta do
Colón. Buenos Aires tornou-se a primeira urbe moderna do continente
. De lá vinha o bom e o mau, inclusive os delinquentes foragidos que
introduziram na gíria carioca o vocabulário do lunfardo: otário, bacana, pinta,
lábia, bronca, todo o linguajar do "Cambalache". Também na Argentina foi que
surgiu a primeira sociedade de massas da América Latina, a primeira grande nação
de classe média, engrossada pelos imigrantes, "los venidos a más", na desdenhosa
expressão atribuída pelo humorista Landrú às oligarcas do Barrio Norte. Lá,
Sarmiento criou o melhor sistema de educação básica do continente e ali teve
início a reforma universitária que renovaria a cultura hispânica. Não surpreende
que tudo isso tenha alimentado, no dizer de Beatriz Sarlo, a "diferença"
cultural argentina, a superioridade de um modelo identitário que se apoiava no
pleno emprego, na cidadania, na educação. Nada parecia ameaçar esse mundo de
"calma, ordem, luxo e volúpia". Mas, debaixo do brilho da superfície, era
apenas, parafraseando o poeta, a história que dispunha poltronas para o conforto
da espera. Tudo começa a acabar com a guerra de 1914. Os europeus passam a
buscar a segurança alimentar, justificativa (ou pretexto) do moderno
protecionismo agrícola. O golpe final virá com as "preferências imperiais", o
acesso privilegiado concedido pela Grã-Bretanha aos produtos dos seus
"Dominions", concorrentes dos argentinos. De nada valerá que o filho do
presidente Roca e signatário do desastroso acordo Roca-Runciman tenha dito, num
brinde improvisado e insensato em Londres, que a Argentina se orgulhava de ser,
na prática, o "quinto Domínio de Sua Majestade"! A globalização vitoriana tinha
chegado ao fim e começava a dolorosa e interminável agonia da economia
argentina. Com indignação e nojo, assisto na TV ao desfilar de abutres do
mercado financeiro, cada um a reclamar sua libra adicional de carne fresca. Mais
cortes orçamentários, mais "disciplina" fiscal, mais redução em salários e
pensões. Não bastou que em 12 meses o número de pobres aumentasse em 3 milhões.
Ou que o desemprego chegasse a 20% e a miséria, a mais de um terço da população.
O cúmulo do simplismo foi o comentário do correspondente da BBC: "Tudo não passa
da consequência de dez anos de corrupção e gastança"! Nem uma palavra sobre como
os ocidentais, com seus subsídios e barreiras, expulsaram a Argentina do
comércio mundial. A globalização de hoje deixou de fora a agropecuária,
justamente o setor onde se concentram as vantagens comparativas argentinas. Ao
contrário da vitoriana, a versão atual não liberalizou a agricultura nem a
imigração e muito menos a tecnologia. E ainda há quem pense que globalização e
liberalização sejam sinônimos, quando a verdade é que a primeira só se serve da
segunda seletivamente, excluindo-a sempre que convenha a seus interesses, como
se acaba de ver com o "fast track" nos Estados Unidos. A história, ou melhor, os
que têm o poder de manipulá-la atraiçoaram a Argentina, pregaram-lhe uma peça
cruel, expelindo-a da divisão internacional do trabalho de que havia sido uma
das principais beneficiárias e obrigando-a a endividar-se por não poder exportar
os produtos em que é competitiva. Raul Prebisch, diretor do Banco Central
argentino na depressão dos anos 30, compreendeu o que, na mesma época, Caio
Prado Jr. percebia no Brasil. Não é a falta de integração ao comércio e à
economia mundiais que está na raiz do problema latino-americano. É o inverso: o
excesso de integra ção perversa a uma globalização injusta é que perpetua o
subdesenvolvimento e as crises. O que conta é a qualidade, não a quantidade de
inserção do tipo precário de que abusou a Argentina. Se não mudar a forma e a
qualida de da inserção, se a globalização não se tornar mais equilibrada, de
nada adiantará estrangular ainda mais o orçamento, jogar alguns milhões a mais
na miséria e no desemprego, dolarizar ou desvalorizar. Continuaremos a ve r na
televisão outras explosões de dor e de desespero em rostos que me recordam os de
Mari e Tita, duas irmãs de Catamarca que velavam pelas minhas filhas pequenas na
Buenos Aires dos anos 60. Espero que a vida e os sobressaltos da história do seu
país não as tenham maltratado muito, pois simbolizam, na dignidade e na doçura,
o melhor desse povo sofrido, gente como a gente, que abraçamos comovidamente
nesta hora de tragédia que é deles mas também nossa.
Rubens Ricupero, 64, é secretário-geral da Unctad (Conferência das
Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), mas expressa seus
pontos de vista em caráter pessoal. Foi ministro da Fazenda (governo
Itamar Franco).
E-mail - rubensricupero@xxxxxxxxxxx
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Néstor Miguel Gorojovsky
gorojovsky@xxxxxxxxxxxx
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